O servidor público Vanderley dos Santos Gomes que atuava na cidade de Amélia Rodrigues, no Recôncavo baiano, e amputou o próprio pé para simular um assalto e tentar receber cerca de R$ 1,5 milhão
em indenizações, começou a cumprir, em maio deste ano, as penas
alternativas impostas pela Justiça. Ele foi condenado na Bahia por
fraudar seguradoras.
O caso que ocorreu em 2019 e, agora voltou à tona após Vanderley
perder recursos na Justiça baiana e não ter mais possibilidade de
recorrer. Ele foi condenado por estelionato a dois anos de reclusão em regime aberto e a pena que foi convertida em prestação de serviços à comunidade por 720 horas e pagamento de prestação equivalente a cinco salários mínimos, no valor de R$ 7.590.
Na época da ocorrência, em 2019, Vanderley disse à polícia ter
perdido o membro durante um assalto seguido de sequestro. No período ele
também havia contratado múltiplas apólices de seguro, cada uma com uma
empresa referência no setor.
Como foi a farsa?
Em agosto de 2019, Vanderley, então com 26 anos, afirmou ter sido
vítima de um assalto seguido de sequestro na cidade de Cruz das Almas.
Segundo a versão apresentada por ele à polícia, dois homens armados o
obrigaram a entrar em um carro, roubaram dinheiro, celular e pertences
pessoais e o levaram até uma estrada de terra no povoado de Mercês, zona
rural de São Gonçalo dos Campos.
Ele relatou que, no local, foi agredido, teve os olhos vendados e o
pé direito amputado pelos criminosos antes de ser abandonado. Vanderley
foi socorrido pela Polícia Militar e levado inicialmente ao hospital
municipal, sendo depois transferido ao Hospital Geral Clériston Andrade,
em Feira de Santana.
No mesmo dia, policiais localizaram o pé amputado próximo a uma
fazenda, junto com uma mochila, sapatos e outros objetos que,
supostamente, teriam sido roubados.
Dias após a ocorrência, Vanderley iniciou os pedidos de indenização junto às seguradoras. O valor total das apólices contratadas chegava a aproximadamente R$ 1,5 milhão em caso de invalidez permanente. A atitude gerou alerta nas seguradoras.
O que a investigação descobriu?
As investigações da Polícia Civil, do Ministério Público da Bahia
(MP-BA) e das seguradoras desmontaram a versão apresentada pelo
servidor. A principal suspeita surgiu após a descoberta de que, poucas
semanas antes do suposto crime, Vanderley havia contratado quatro
seguros de vida e acidentes pessoais.
A primeira apólice foi firmada em 17 de junho de 2019 com a Tokyo
Marine, com cobertura de R$ 800 mil. Dois dias depois, contratou outro
seguro com a Allianz, no valor de R$ 400 mil.
Em 29 de junho, fez uma terceira apólice com a Zurich Minas Brasil
Seguros, também de R$ 800 mil. Por fim, contratou um quarto seguro com a
Sompo Seguros, com cobertura de R$ 100 mil.
O volume de apólices em curto intervalo de tempo, somado ao rápido
pedido de indenização imediato após a mutilação, despertou suspeitas no
sistema de inteligência das seguradoras.
Durante a apuração, perícias, relatórios médicos, documentos e
depoimentos apontaram inconsistências na narrativa. Para investigadores e
magistrados, a história de um sequestro seguido de amputação sem pedido
de resgate ou qualquer outra vantagem aos supostos criminosos era
inverossímil.
Condenação na Justiça
A Justiça concluiu que Vanderley planejou a fraude ao contratar os
seguros e provocar a própria mutilação para receber as indenizações.
Na primeira instância, a defesa pediu absolvição por insuficiência de
provas. No recurso ao Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), sustentou
novamente que não havia comprovação de que ele tivesse planejado a
fraude ou causado a própria lesão.
Em 2025, a maioria da Segunda Câmara Criminal manteve a condenação. A
relatora original da apelação votou pela absolvição, mas foi vencida
pelos demais desembargadores, que consideraram robusto o conjunto
probatório.
A defesa ainda tentou levar o caso ao Superior Tribunal de Justiça
(STJ), mas não teve sucesso. A Justiça baiana entendeu que todos os
pontos levantados já haviam sido devidamente analisados durante o
processo.
Com o trânsito em julgado, Vanderley foi intimado em maio de 2026 a iniciar o cumprimento da pena.
(Diário do Nordeste)