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Ex-tenista de 82 anos organizou plano fuga de reféns em cafeteria de Sydney

John O'Brien, de 82 anos, viu um vão na cafeteria, por onde conseguiu escapar
Temendo que todos pudessem ser mortos durante o sequestro na cafeteria de Sydney, na Austrália, na segunda-feira (15), o refém John O'Brien, 82, tomou uma decisão: ele iria tentar escapar.

O ex-tenista profissional, que já havia disputado o torneio de Wimbledon, olhou para o sequestrador iraniano Man Haron Monis, 50. O criminoso estava do outro lado do estabelecimento, atrás de mesas e cadeiras, e usava duas ou três jovens como escudo humano.

Ele se virou então para um advogado, que estava de pé com as mãos contra uma janela e os olhos fechados, como havia sido ordenado por Monis. "Eu disse a ele: 'Olha, isso aqui não vai terminar bem, esse cara não vai conseguir sair daqui com vida'", relatou O'Brien à "Associated Press". O ex-tenista sussurrou seu plano para o advogado, que respondeu: "Boa ideia".

O'Brien estava exausto e se perguntava se não estaria sonhando. A última vez que havia se alimentado tinha sido pela manhã, antes de virar refém. Ele havia pedido um cappuccino e um pão tostado. O idoso havia achado a bebida cremosa e saborosa, apesar de ter pagado caro. Ele gostou dos chocolates expostos no balcão da cafeteria Lindt, que ele frequenta algumas vezes por ano, geralmente após a consulta com seu oftalmologista, como a que teve naquela manhã.

Ele estava comendo seu pão quando o sequestrador invadiu o estabelecimento, usando uma bandana com escritos em árabe. Ele então mostrou seu armamento. O'Brien viu que a arma tinha o tamanho de uma raquete de tênis. E soube imediatamente que a situação seria complicada.

O sequestrador segurou o gerente da cafeteria, Tori Johnson, 34, e o obrigou a trancar a porta. Ele estava extremamente agressivo e beligerante, segundo o idoso.

Sequestro em cafeteria de Sydney termina com três mortos

15.dez.2014 - Dois reféns alcançam linha de proteção policial após deixarem cafeteria sob domínio de sequestrador em Sydney, na Austrália. Não está claro se os cinco reféns que saíram da cafeteria fugiram ou foram libertadas pelo sequestrador Leia mais William West/AFP
 
Havia 17 pessoas no café naquele momento. Automaticamente, se transformaram em reféns. Várias eram funcionários do café, com 20 e poucos anos de idade. Os clientes eram três advogados e quatro bancários, que trabalham nas redondezas. O'Brien era o mais velho e Jarrod Hoffman, um universitário de 19 anos que trabalha no estabelecimento, o mais novo.

O criminoso ordenou que os clientes ficassem com as mãos nas janelas da cafeteria e que segurassem uma bandeira islâmica. O'Brien conta ter ficado com as mãos no vidro entre 30 e 45 minutos antes de dizer sua idade ao sequestrador e que precisaria se sentar.

Esse foi o primeiro ato em que ele desafiou a autoridade de Monis. O idoso sentiu-se mais forte. Ele está notavelmente em forma pela idade que tem. O'Brien ainda joga tênis e é um dos melhores da Austrália em sua faixa etária. Quando jovem, em 1956, ele chegou até a quarta rodada no torneio de Wimbledon, um dos mais importantes do mundo. Após reclamar, o sequestrador permitiu que o idoso e outras pessoas se sentassem.

As horas passavam enquanto o criminoso tentava ter suas estranhas exigências atendidas: que uma bandeira do Estado Islâmico fosse entregue na cafeteria e que se realizasse uma audiência com o primeiro-ministro australiano, Tony Abbott.

Por algumas vezes, O'Brien conseguiu descansar sua cabeça em uma mesa. Ele pensou sobre sua mulher, Maureen, cujo irmão morrera duas semanas antes. Pensou em suas duas filhas. Pensou no sequestrador e se convenceu de que era maluco.

Sem alarde, o idoso deixou a cadeira em que estava e passou a se sentar no chão. Ele notou que havia um pequeno vão entre a parede e um grande painel de anúncio, que possivelmente tinha uma área de 4,5 metros quadrados. O vão tinha menos de 0,3 metro de largura. Ele viu que teria de se espremer para o plano dar certo.

Fez várias tentativas até que conseguiu passar. Nesse instante, o painel o escondia do sequestrador. O'Brien olhou para cima e viu um botão verde, mas não tinha certeza se ele iria abrir as portas de vidro. Se o botão não funcionasse, ele pensou, ele seria visto pelo sequestrador --e morto.

O que também pesava em sua mente era o fato de deixar os outros reféns para trás. "Eu estava terrivelmente preocupado com eles", disse o ex-tenista. Mas não havia como voltar atrás. Ele se levantou, apertou o botão e um momento depois, por volta das 15h37 locais, estava livre.

As imagens de O'Brien correndo em direção à polícia, com o advogado a quem confidenciou o plano de fuga logo atrás, foram exibidas em todo o mundo. Os dois ergueram suas mãos ao alcançar os policiais. O idoso deu um passo atrás, gesticulando em direção à cafeteria enquanto um policial o tirou da linha de frente para colocá-lo em uma área segura.

Nas horas seguintes, outros reféns conseguiram se libertar. O cerco acabou apenas por volta das 2h locais, em um tiroteio no qual a polícia invadiu a cafeteria para libertar os reféns remanenscentes. Dois deles, o gerente Johnson e outra mulher, foram mortos, assim como o sequestrador.

Johnson poderia ser saudado como herói após relatos de que ele teria lutado com o criminoso, salvado a vida de alguns reféns. O'Brien certamente considera o gerente um herói. O idoso diz que não consegue dormir e que não para de pensar em Johnson e na outra vítima, Katrina Dawson, um mulher de 38 anos, mãe de três filhos. "Eles não estavam fazendo nada errado", diz O'Brien.



Fonte: Uol Notícias