Gabriel Mesquita, 19, sonha com a profissão desde a infância e contou com o apoio integral da família.
Legenda: Gabriel Mesquita, calouro em medicina aos 19 anos, ao lado dos pais e da avó. Foto: Arquivo pessoal.
Entre pneus, ferramentas e carros para manutenção, havia, antes de um borracheiro, um pai emocionado: José Valdir tem um filho que vai cursar Medicina. Aos 19 anos, Gabriel Mesquita conquistou vaga na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN) e deve iniciar os estudos no segundo semestre de 2026.
A notícia da aprovação veio no começo de fevereiro, quando saiu a lista do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). O encontro do pai com o futuro médico aconteceu numa surpresa orquestrada. Gabriel chegou na oficina em que José Valdir trabalha no horário comercial com os braços pintados do curso e da universidade anunciando: "Pai, eu passei!".
O anúncio do sonho realizado, sob olhos marejados, foi registrado pela irmã de Gabriel, Lethycia Mesquita, e repercutiu nas redes sociais.
"Somos, com muito orgulho, filhos de um pai borracheiro e de uma mãe doméstica, que, mesmo sem muitas oportunidades, nos concederam a maior das honrarias, a possibilidade de sonhar. Meu irmão, aluno de escola pública, será médico!", descreveu a irmã mais velha de Gabriel em publicação no Instagram.
Natural de São Luís do Curu, na Região Metropolitana de Fortaleza, o jovem que cursou o ensino técnico em Pentecoste, na EEEP Alan Pinho Tabosa, é filho de José Valdir e Maria Valdilene e carrega na trajetória a marca do esforço familiar e da descoberta de que a universidade pública era possível.
“Eu sempre quis algo na área da saúde, desde pequeno. Mas, na minha realidade, a gente achava que faculdade era algo pago, que não dava pra gente”, lembra.
Foi a irmã Lethycia quem apresentou um novo horizonte. Ao mudar de cidade para fazer o ensino médio em Itapajé, na EEEP Adriano Nobre, ela conheceu o universo do vestibular e passou a incentivar o irmão. “Ela começou a me alertar, a me dar exemplos. Aquele sonho que eu tinha quando criança começou a fazer sentido”, explicou Gabriel durante entrevista ao Diário do Nordeste.
"Eles sonharam junto comigo"
A rotina de Gabriel durante o ensino médio foi marcada por longos deslocamentos e pouco tempo livre. Ele acordava por volta das 5h30, acompanhado do pai, que o deixava no ponto de ônibus antes de seguir para o trabalho.
Legenda: José Valdir aguardava no ponto de ônibus o embarque do filho em direção à escola e depois seguia para trabalhar. Foto: Arquivo pessoal.
“Minha mãe preparava o café e me desejava boa sorte. Meu pai ficava comigo até o ônibus chegar. Desde o começo do dia, eu já tinha o apoio deles para enfrentar mais uma rotina difícil. Mas eles sonharam junto comigo”, relata.
Ao longo do dia, o incentivo continuava em mensagens e pequenos gestos. À noite, ainda encontrava espaço para estudar.
Legenda: Das suas maneiras de demonstrar apoio e carinho, José Valdir e Maria Valdilene estiveram integralmente no preparo para o vestibular. Foto: Arquivo pessoal.
Sem acesso a cursinhos, Gabriel contou que recorreu a materiais gratuitos para se preparar para o vestibular. Estudou por meio de videoaulas na internet, resolveu provas antigas do Enem e adaptou a rotina à própria realidade. “Eu entendi que não conseguia aprender tudo de uma vez. Fui no meu tempo, sem me comparar com os outros”, explica.
No último ano, intensificou os estudos, fazendo questões inclusive dentro do ônibus, e focou na organização e na tranquilidade durante o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
O processo até a aprovação foi longo e, segundo ele, exigiu disciplina e equilíbrio emocional. “A maior dificuldade foi chegar no dia da prova bem psicologicamente. Porque durante o ano acontecem muitos problemas, principalmente financeiros, e isso afeta”, afirma.
Legenda: Gabriel, que cresceu vendo o trabalho árduo do pai borracheiro e da mãe doméstica, faz de sua conquista um gesto de gratidão. Foto: Arquivo pessoal.
Para Gabriel, a aprovação não é uma conquista individual: “É o resultado de um grande esforço, principalmente dos meus pais. Eles trabalharam a vida inteira, em condições difíceis, e conseguiram formar minha irmã e agora verem meu ingresso em Medicina”, destaca.
Para ele, é muito gratificante, depois de toda a batalha dos pais, conseguir dar esse retorno. “Algo muito forte”, afirma.
Sonho de 'cuidar das pessoas de onde eu vim'
A família já se organiza para a mudança para Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte, cidade onde ele vai cursar Medicina. Apesar das dificuldades financeiras, o estudante diz que o objetivo está claro: “Não importa onde eu vá, sempre vai ter dificuldade. Mas a gente está enfrentando o que consegue. O foco é ir e concluir a faculdade”, diz.
O plano, no entanto, vai além da formação. Gabriel pretende retornar à cidade natal após se estabelecer profissionalmente.
"Quero estudar, aprender a prática médica e depois voltar para São Luís do Curu. Poder cuidar das pessoas de onde eu vim. É sobre cuidar, trazer conforto, fazer diferença na vida das pessoas. E também construir um futuro melhor para minha família, algo que a gente nunca teve com tanta estabilidade".
(Diário do Nordeste)