A piscina, no térreo, está vazia há anos. A pintura das paredes,
descascada. Muitas das janelas e portas estão quebradas. A fachada exibe
pichações. O abandono evidente contrasta com a beleza arquitetônica do
edifício Hilton Gonçalves dos Santos, localizado no Flamengo, bairro
nobre da zona sul do Rio de Janeiro.
Inaugurado em 1953 para ser sede do Clube de Regatas do Flamengo, o
prédio de 24 andares e 148 apartamentos foi arrendado em 2012 pelo clube
à Rex Hotel, imobiliária do grupo EBX, do empresário Eike Batista. O
plano era transformá-lo num moderno hotel de cinco estrelas com 454
quartos, em um investimento de R$ 100 milhões. Com a crise que
desfigurou o império do empresário, o projeto nunca saiu do papel.
Na madrugada da última terça-feira (7), a história do edifício ganhou
um novo capítulo com a chegada de cerca de 100 sem-teto, que ocuparam o local.
O cenário dos dois primeiros andares se transformou radicalmente. Nos
amplos corredores e salões do prédio, os novos moradores se instalaram
em colchões encontrados nos apartamentos vagos e degradados dos andares
superiores.
Adultos e crianças, veteranos de ocupações, estão
mobilizados para se adaptar ao novo e temporário lar.
A estada do grupo no prédio, situado no número 170 da avenida Rui
Barbosa, vai durar pouco. Na última quinta (9), a Justiça do Rio
determinou a reintegração de posse do edifício,
que pode acontecer a qualquer momento. Ontem pela manhã, um oficial de
Justiça foi até o local e informou os invasores sobre a decisão. A
Polícia Militar, que auxiliará na ação, informou, à noite, que não
divulgaria a data e a hora da reintegração.
A ocupação é feita majoritariamente por removidos em 26 de março de um terreno da Cedae
(Companhia Estadual de Águas e Esgotos) na zona portuária. Entre a
última remoção e a nova ocupação, muitos dormiram na rua, inclusive mães
com bebês. De acordo com os ocupantes, cerca de 250 pessoas se revezam
no edifício desde a terça. Alguns deles moraram, no ano passado, no
antigo prédio da Oi, no Engenho Novo, na zona norte do Rio. A desocupação do imóvel completa um ano neste sábado (11).
Um dos representantes do grupo, Alexandre Silva, 37, criticou a decisão
judicial e disse esperar que os defensores públicos que os representam
revertam as liminares. "A decisão saiu em menos de um dia, o que é
isso?", questionou. "O prédio estava abandonado há muito tempo. Sempre
ouvia isso e pensava: vou trazer o povo para cá", conta Silva, que disse
estar engajado na luta por moradia há 15 anos.
Ex-ocupante do edifício da Oi, Elizabeth da Silva, 37, se espantou com o
tamanho do prédio e lamentou: "como é que pode? Um lugar tão grande
desses, com tanta coisa se estragando, e tanta gente precisando de lar".
Faxina, apreensão e fome
Viver em uma ocupação, em comunidade, exige disciplina. É o que ensina
Cassiane Serafim, 42, que fez parte do grupo expulso do terreno da
Cedae. "A gente lava e arruma tudo direitinho. Nos revezamos para lavar
banheiro, varrer o chão. Agora estamos morando na frente do mar, né?",
comenta a mulher, que, desempregada, vivia de aluguel na Mangueira, zona
norte, quando se integrou à ocupação na zona portuária.
"Quando a gente chegou aqui, só tinha entulho. A gente ajeitou tudo",
conta Alessandra de Souza, 45. Além da limpeza, os atuais moradores do
edifício Hilton Santos têm que se preocupar diariamente com o que vão
comer. "Estamos sobrevivendo de doações", diz a mulher, enquanto cozinha
macarrão instantâneo. "As crianças são prioridades. A gente às vezes
passa fome o dia todo".
Na tarde desta sexta, a reportagem presenciou o momento em que uma
mulher parou o carro e entregou um saco com comida. Segundo os
moradores, foi a segunda doação do dia. Água também está sempre no topo
da lista de necessidades.
A presença de pelo menos uma viatura da PM na frente do prédio e de um
segurança contratado pela Rex Hotel dentro do edifício durante todo o
dia às vezes atrapalha a entrada de mantimentos e o trânsito dos
ocupantes. Alguns deles disseram se sentir presos, já que podem ser
impedidos de voltar caso deixem o imóvel. Um guarda ouvido sob anonimato
pela reportagem, no entanto, disse que "dança conforme a música".
Por serem os únicos com energia elétrica disponível, apenas os dois
primeiros andares do prédio estão ocupados. Os ocupantes utilizam quatro
banheiros no espaço e tomam banho de balde, com a água "amarelada" da
cisterna do local.
"Distrair a mente"
Enquanto espera a definição da situação do grupo, José Ricardo, 31,
tenta distrair a mente como pode. Nesta sexta, ele desenhou um tabuleiro
de damas no verso de um quadro achado em meio ao entulho, recolheu
tampas de garrafas para usar como peças e começou a jogar com a cunhada.
Na área externa do prédio, um grupo jogava bola. Quatro televisões, de
variados tamanhos e estados de conservação, ficam ligadas durante a
maior parte do dia. Mães e pais tentam entreter as crianças, muitas
delas de colo.
O menino Carlos Silva, que tem um ano e dois meses de idade, corria
pela piscina vazia atrás da mãe. "Ele está adorando brincar aqui", disse
a mãe.
Fonte: Uol Notícias
