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Sítio arqueológico com pinturas rupestres revela presença ancestral na Serra da Meruoca

Foto: Divulgação/ Nonato Fernandes.
 

Um sítio arqueológico localizado no município de Massapê, na região da Serra da Meruoca, reúne registros de pinturas rupestres que ajudam a contar parte da história das populações que habitaram o território cearense antes do período colonial. Conhecido como Córrego da Onça, o local apresenta grafismos variados em um afloramento rochoso em cerca de 17.927 m² de extensão.

Apesar da relevância histórica e científica, o sítio nunca foi escavado. Os registros existentes se concentram principalmente nas pinturas preservadas nas rochas, que revelam aspectos simbólicos, culturais e sociais dos grupos humanos que ocuparam a região.

Segundo o arqueólogo Agnelo Queirós, o sítio já "era descrito há muito tempo, por volta da década de 1950, por Tomás Pompeu Sobrinho, um dos historiadores que faziam mapeamentos pelo Instituto Histórico, Antropológico e Geográfico do Ceará”. O local também foi descrito em detalhes por Padre Lira, pesquisador que atuou na região de Sobral e publicou a obra "Sítios Arqueológicos do Centro-Norte do Ceará", na década de 1980.

Queirós explica que o nome Córrego da Onça segue um padrão adotado na área: “Quando a gente cadastra um sítio, usamos o nome que a comunidade se refere ao espaço. É também uma forma de valorizar o conhecimento local”, afirma.

As pinturas apresentam diferentes tipos de representações, como figuras zoomorfas, que remetem a animais; antropomorfas, associadas à forma humana; possíveis representações de elementos vegetais e uma grande variedade de formas geométricas. “Esse tipo de expressão visual tem um padrão. Quando comparamos diferentes sítios, percebemos estilos semelhantes em determinadas regiões. Isso mostra que existiam tradições visuais e culturais compartilhadas”, diz Agnelo Queirós.

Ocupação antiga da Serra da Meruoca

O historiador Sávio Barbosa, mestre em História pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) e pesquisador de sítios arqueológicos na Serra da Meruoca, reforça que o local faz parte de um contexto maior de ocupação indígena na região.

A análise comparativa com outros sítios da serra indica que esses locais funcionavam como pontos interligados dentro de um território ocupado por populações originárias. 

Para o historiador, as pinturas revelam uma relação simbólica entre essas populações e a paisagem.

Os grafismos não são simples marcas decorativas. Eles representam formas de expressão, comunicação e construção de memória no território.

Entre os padrões identificados no Córrego da Onça estão elementos associados à chamada Tradição Agreste, caracterizada por formas geométricas e composições estruturadas.

Um detalhe chama a atenção dos pesquisadores: figuras semelhantes a mãos, conhecidas tecnicamente como “carimbos”. “Esse tipo de representação também aparece em sítios próximos, como o Letreiro do Serrote das Rolas, em Santana do Acaraú. Isso sugere circulação de referências culturais entre grupos da região”, frisa Barbosa.

 

Uma parede de rocha clara e porosa exibe diversas pinturas rupestres em tons de vermelho desbotado, com destaque para grafismos geométricos e linhas verticais que se entrelaçam na superfície rugosa. Pequenos ninhos de terra em formato de esfera estão incrustados em várias partes da pedra, especialmente em uma cavidade natural à direita e ao longo de uma fissura horizontal no topo. A luz natural enfatiza as texturas da rocha e as marcas deixadas pelo tempo e pela ação humana ancestral.
Foto: Reprodução/Nonato Fernandes

Desafios para a preservação

Apesar do valor histórico, o sítio enfrenta desafios relacionados à conservação. Uma das principais questões envolve o fato de muitos sítios arqueológicos estarem localizados em áreas privadas ou próximas a regiões utilizadas para atividades agrícolas. Queirós destaca que muitas famílias vivem da agricultura há gerações nesses territórios.

Não podemos tratar o pequeno agricultor como criminoso. Muitas vezes ele sabe que aquelas pinturas são antigas, mas nunca teve acesso a um processo educativo que explique a importância desse patrimônio.

Para os especialistas, preservar esse tipo de registro arqueológico significa também reconhecer a história dos povos originários que habitaram o território. “Esse patrimônio precisa ser fortalecido junto com a memória dos povos indígenas”, afirma Agnelo Queirós. O arqueólogo defende que o principal caminho é a educação patrimonial e a gestão compartilhada entre poder público, pesquisadores e comunidades locais. 

Uma parede de rocha bege e rugosa apresenta diversas pinturas rupestres em pigmento avermelhado, parcialmente cobertas à esquerda por troncos e galhos de uma planta de folhas verdes. Os grafismos pré-coloniais distribuem-se de forma irregular pela superfície, variando entre manchas sólidas e padrões geométricos sutis. Na base da rocha, galhos secos cortados repousam sobre o chão, compondo um cenário que mistura natureza viva e marcas ancestrais.

Legenda: Entre grafismos geométricos e zoomorfos, destacam-se figuras conhecidas como "carimbos" — representações de mãos humanas que sugerem uma tradição cultural compartilhada com outros povos da região. Foto: Reprodução/Nonato Fernandes

Entre os fatores que mais impactam a conservação estão as ações humanas, como desmatamento, queimadas e visitação desordenada.

O historiador Sávio Barbosa explica que também existem fatores naturais que afetam a preservação: “As intempéries físicas estão ligadas à variação de temperatura, ao vento e à chuva. A rocha se dilata durante o dia e se contrai à noite, gerando fissuras ao longo do tempo”, explica.

Além disso, processos químicos e biológicos também contribuem para o desgaste das pinturas, como a ação de umidade, líquens, fungos e microrganismos que se fixam na superfície das rochas.

Uso educativo e social

Uma das possibilidades apontadas pelos especialistas é transformar esses locais em espaços educativos e de valorização cultural. Agnelo Queirós defende que o ideal seria transformar esses sítios em laboratórios "a céu aberto" para escolas públicas. Ele cita como exemplo a existência de escolas próximas ao sítio cujos estudantes aprendem sobre história pré-colonial sem nunca terem visitado o local.

Além da educação, outra possibilidade seria o desenvolvimento de turismo de base comunitária, envolvendo moradores na gestão e na valorização do patrimônio. “Quando as pessoas entendem que aquele patrimônio também faz parte da história delas, o cuidado aumenta”, afirma o arqueólogo.

O historiador Sávio Barbosa também defende estratégias que conciliem preservação e desenvolvimento local. Entre as possibilidades estão projetos de economia criativa, formação de guias locais, produção cultural e turismo arqueológico responsável.

Cadastro e proteção legal

O sítio Córrego da Onça já possui registro no cadastro nacional de sítios arqueológicos, mantido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Segundo Agnelo Queirós, o primeiro cadastro foi realizado pela arqueóloga Jacionira Coelho na década de 1990. Posteriormente, o local passou por um processo de recadastramento, que atualiza informações como localização, estado de conservação e possíveis pesquisas realizadas no local.

Pela legislação brasileira, todos os sítios arqueológicos são considerados bens protegidos da União.

A reportagem procurou o Iphan e a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult) para comentar a situação do sítio arqueológico, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. A gestão municipal de Massapê também foi contatada, mas não respondeu de forma conclusiva aos questionamentos enviados.

(Diário do Nordeste)