Suspeito agia sempre de forma semelhante: invadia residências durante a madrugada e atacava mulheres de diferentes idades,
A rotina de tranquilidade no bairro José Walter, em Fortaleza, foi profundamente abalada entre os anos de 1985 e 1987 por uma série de ataques que ficaram conhecidos como o caso do “Corta-Bundas”. O responsável pelos crimes, identificado como Francisco Evandro Oliveira da Silva, então com 26 anos, foi apontado como autor de dezenas de agressões contra mulheres, em episódios que provocaram pânico coletivo e mobilizaram moradores e autoridades.

Segundo relatos da época, o suspeito agia sempre de forma semelhante: invadia residências durante a madrugada e atacava mulheres de diferentes idades, utilizando um estilete para ferir as vítimas na região das nádegas. A violência e a repetição dos ataques contribuíram para que o caso ganhasse ampla repercussão na imprensa local, tornando-se um dos episódios mais marcantes da crônica policial da capital cearense.
Clima de medo alterou rotina dos moradores
Moradores antigos do bairro relatam que o período foi marcado por medo constante e mudanças no cotidiano. A dona de casa Francisca das Chagas Araújo, residente há mais de quatro décadas na região, relembra a tensão vivida pelas famílias. Segundo ela, o receio de invasões durante a madrugada tirava o sono dos moradores, que temiam ser surpreendidos dentro de suas próprias casas. “Tinha medo. Às vezes eu ficava deitada pensando assim, ai meu Deus, será que ele vai arrebentar tudo e entrar? Porque só era na calada da noite que ele fazia esse negócio”, relatou.
O aposentado Manoel de Abreu também recorda o impacto direto na rotina da comunidade. Ele afirma que moradores passaram a se organizar para vigiar residências durante a noite, em uma tentativa de prevenir novos ataques. O clima de insegurança foi tão intenso que, de acordo com relatos, houve desvalorização de imóveis e saída de famílias da região.
“Foi um terror aqui, que a gente não dormia de noite. E as casas daqui desmoralizaram o preço. Que muita gente vendeu suas casas a preço de banana por causa dessa história”, afirmou.
Uma das estratégias adotadas pelos moradores para alertar sobre possíveis suspeitos era o uso de panelas, batidas como forma de aviso coletivo. A prática funcionava como um sistema improvisado de vigilância comunitária diante da sensação de vulnerabilidade.
Ataques do “Corta-Bunda” e repercussão do caso
O caso ganhou destaque na cobertura jornalística da época, com acompanhamento de repórteres que registraram os desdobramentos das investigações. O jornalista Jânio Alves esteve entre os profissionais que cobriram o episódio e chegou a entrevistar o suspeito após sua prisão.
“Tem um detalhe, sabe como é que eles faziam? Elas viam alguém suspeito e colocavam panelas na residência e ficavam batendo. ‘Olha, tem um cara suspeito aqui’”, explicou.
De acordo com os relatos, Francisco Evandro teria admitido os ataques e indicado que suas vítimas eram exclusivamente mulheres, incluindo crianças, jovens e idosas. O comportamento foi descrito como recorrente e associado a distúrbios mentais, conforme apontado por análises posteriores.
O escritor Jansen Viana também se debruçou sobre o caso, desenvolvendo uma obra de ficção baseada nos acontecimentos reais. Segundo ele, a proposta foi retratar o impacto social e o medo gerado na população, preservando a essência dos comentários que marcaram o período.
É ficção, né? Troquei o nome dos personagens, criei outros, mas mostrei a verdadeira história. Porque é importante que as pessoas saibam a maneira que ele atacava, como o povo ficou apavorado, o pânico que causou na cidade”, explicou.
Após cerca de dois anos de ataques, o suspeito foi reconhecido por moradores e capturado no dia 6 de fevereiro de 1987. Ele foi conduzido ao então 8º Distrito Policial, localizado no próprio bairro José Walter, em meio à comoção popular.
Desfecho e consequências
Pouco tempo após a prisão, Francisco Evandro foi transferido para o Instituto Penal Professor Olavo Oliveira. Cerca de 20 dias depois, ele foi assassinado dentro da unidade prisional. Antes disso, em entrevista, o próprio suspeito já havia mencionado o temor de ser morto no sistema penitenciário.
O caso deixou marcas duradouras na memória da população local e passou a integrar o imaginário popular de Fortaleza. Além de registros jornalísticos, a história inspirou produções culturais, como documentários e histórias em quadrinhos.
Especialistas e observadores destacam que o episódio também levanta reflexões sobre a violência contra a mulher e a resposta das autoridades à época. Durante o período dos ataques, mais de 70 vítimas foram registradas, e a captura do suspeito ocorreu com participação direta da comunidade.
Mesmo décadas depois, o caso “Corta-Bundas” segue sendo lembrado como um dos episódios mais emblemáticos da violência urbana em Fortaleza, evidenciando desafios históricos relacionados à segurança pública e à proteção de grupos vulneráveis.
(Portal GCMais)