
A gente foi receber as meninas no posto (de gasolina) quando elas voltaram de uma das feiras (científicas). Ficamos aplaudindo, com balões, plaquinhas. Aí eu pensei: meu Deus, como seria se eu também estivesse fazendo parte desse grupo. Foi muito legal. Todo mundo gritando.” A sensação de março de 2023 não desapareceu da memória da adolescente Nayla Medeiros, de 16 anos, moradora de Pedra Branca, no Sertão Central do Ceará, àquela altura estudante do ensino fundamental.
Anos depois, a inspiração ganhou materialidade e hoje ela também, agora no ensino médio, celebra as próprias conquistas, sendo inclusive finalista este ano do Prêmio Jovem da Água de Estocolmo, considerado o “Nobel” da ciência jovem voltada às questões hídricas.
A admiração pelas conterrâneas, que compartilham semelhanças, como serem adolescentes, alunas de escola pública e do interior, na cidade localizada a 260 km de Fortaleza, tem uma camada extra: são jovens cientistas mulheres. Anos depois daquele dia marcante, essa espécie de espelho no qual Nayla se vê projetada e no qual também deseja que outras alunas se projetem, continua refletindo avanços.
Naquele dia, que permanece na memória de Nayla, duas das jovens voltavam da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), maior evento pré-universitário do país, já credenciadas para a Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF), a maior feira internacional de ciências e engenharia para estudantes do ensino médio do mundo. Elas e Nayla têm outro ponto em comum: a passagem pela Escola Estadual de Ensino Profissionalizante Antônio Rodrigues de Oliveira, da rede pública.
O Diário do Nordeste publica, em 2026, a quinta edição do projeto Terra de Sabidos, que neste ano, tem como foco a produção científica nas escolas públicas do Ceará. O especial percorre Fortaleza e cidades do interior, como Ocara, Pedra Branca e Iracema, e apresenta iniciativas e projetos de pesquisa desenvolvidos por jovens e professores orientadores que contribuem para a produção do conhecimento e para a resolução de problemas nas mais diversas áreas da ciência, ainda no ensino fundamental e médio.
Na Escola Estadual de Educação Profissional Antônio Rodrigues de Oliveira, no sertão do Ceará, pelo menos desde 2019, uma equipe de iniciação científica, formada por professores e alunos, tem consolidado uma cultura de pesquisa cujo foco é a investigação e a resolução de problemas locais. Esse trabalho já resultou na conquista de 103 prêmios, entre reconhecimentos nacionais (incluindo 1º, 2º e 3º lugares) e credenciais para eventos científicos internacionais.
Vieram medalhas, troféus, certificados, publicações de artigos, acesso a recursos financeiros, bolsas e custeios de viagens para outras cidades, estados e até países. A ciência os tem levado a conhecer da capital Fortaleza a territórios absolutamente distantes, incluindo aqueles onde sequer o português é a língua oficial. Mais ainda: tem assegurado conquistas intangíveis como melhoria da autoestima, orgulho, disciplina, curiosidade e entusiasmo.
Percursos das pesquisas
Essa história, para Renato Moreira, que é o professor da escola e está à frente da equipe de iniciação científica, começou quando ele ainda era aluno da unidade entre 2013 e 2015. Nesse período, ele fez pesquisa, foi para o Ceará Científico, feira realizada pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc), na etapa local e regional, e com isso viajou pela primeira vez para Fortaleza.
Ele fez o curso de Química no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) e, formado, retornou para a escola em 2019. “Voltei com o anseio de possibilitar para outros estudantes o que eu vivi. Porque é uma escola pública, do interior do estado. Alunos que vivem aqui são de situações, geralmente, de vulnerabilidade social, pelo próprio contexto da cidade”, aponta.
Na volta, começou a desenvolver pesquisa científica inicialmente com dois grupos estudantes, mas destaca, naquela época, sem as parcerias hoje já consolidadas “com grandes universidades”, como a Universidade Federal do Ceará (UFC), o IFCE, e a Universidade Estadual do Maranhão (Uema).
A partir desse movimento, os alunos avançaram em eventos científicos, chegaram a etapas estaduais e conquistaram prêmios. Durante a pandemia de Covid, os trabalhos passaram a ser remotos. No retorno, as duas alunas lembradas por Nayla Medeiros ficaram em terceiro lugar na etapa estadual do Ceará Científico.
Naquele momento, a equipe formada pelos orientadores Renato e Rafael Saraiva, e as estudantes Lauanda Vitoriano e Kalyne Falcão, à época, no 2º ano do ensino médio, se credenciavam para viajar aos Estados Unidos, chegando no topo dos eventos científicos que haviam se proposto a participar. Era a primeira vez que isso ocorria na escola.
“Chegou um momento que eu tinha oito pesquisas ao mesmo tempo em que eu estava orientando junto com outro colega. Atualmente, eu oriento só. Fiquei de fato só por questões de lotação”, explica, acrescentando que essa é também uma das dimensões desse trabalho: ter uma carga horária mais baixa em sala para garantir que ele possa fazer o trabalho de orientação científica.
Hoje, essa cultura da iniciação científica, avalia ele, “acontece pelos próprios estudantes, já que um inspira o outro”. Ele também aponta: “vê o colega chegando em Fortaleza, ele chega em São Paulo, em Recife, em Nova Iorque, vê o estudante falando inglês, a ciência possibilitando e mudando a realidade dos estudantes, ele percebe: eu posso”.
“A diferença da primeira para a segunda participação é que na segunda, nós acreditávamos que era possível ganhar o prêmio, porque as meninas anteriores conseguiram. Então, é o que eu falo de um grupo motivar o outro. Aí conquistamos o terceiro lugar geral da feira. Foi grandioso porque levamos um projeto da Caatinga, falando como a plantação de árvores de nim indiano impacta a Caatinga. Os avaliadores amaram e as meninas falando inglês sem intérprete, sem tradutor, foi incrível”.
Em 2023, veio o credenciamento para a ISEF, em Dallas, nos Estados Unidos. No ano seguinte, outras duas alunas, Bruna Vitória Bernardo e Gyuliana Facundo de Oliveira, chegaram à Genius Olympiad, uma competição internacional voltada a estudantes do ensino médio cujo foco são questões ambientais globais, e ocorreu em Nova Iorque.
Dois anos depois, os alunos foram credenciados novamente para duas feiras internacionais - a ISEF e a Genius Olympiad - de modo simultâneo. Em 2026, a participação dos estudantes Antônio Matheus Monteiro Lopes e Marianne Martins Farias Vieira de Lima, na Febrace, rendeu mais uma credencial para a Genius Olympiad, em Nova Iorque. Uma nova viagem e uma nova oportunidade de apresentar ao mundo a ciência pré-universitária feita no interior do Ceará, com o foco, juntamente, nas questões desse território.
Presença em eventos nacionais e internacionais
Além da participação nos dois grandes eventos nos Estados Unidos, Renato também explica que a escola já se credenciou para participar de feiras científicas na Bélgica, no Paraguai, na Argentina e nos Emirados Árabes Unidos. Mas, nesses outros, os estudantes não foram presencialmente, explica ele, “por questões de logística dentro da própria instituição” que envolve desde a liberação do professor, até o mais complexo que é a garantia do custeio.
As oportunidades vieram a partir da participação em feiras científicas nacionais, que funcionam como porta de entrada para eventos maiores. Entre as principais estão a Expo Nacional Milset Brasil, feira internacional realizada em Fortaleza, e a Feira Nordestina de Ciência e Tecnologia (Fenecit), em Recife, que é considerada a maior feira de ciência e engenharia do Nordeste.
Nessas competições, os projetos premiados recebem credenciais, uma espécie de “passaporte” que permite representar o Brasil em eventos nacionais e internacionais. Além disso, a escola também participa do prêmio Solve for Tomorrow, promovido pela Samsung, no qual já chegou à final nacional com três estudantes, ficando entre os dez melhores projetos do país e sendo a única escola do Ceará na etapa decisiva, realizada em São Paulo.
Outro reconhecimento é do Prêmio Jovem da Água de Estocolmo (Stockholm Júnior Water Prize - SJWP) Brasil, uma das principais competições sobre água e sustentabilidade no mundo, que seleciona os melhores projetos de jovens do país. Nos últimos dois anos, a escola ficou entre os cinco finalistas nacionais, com iniciativas voltadas a problemas locais, e disputou a chance de representar o Brasil na etapa internacional, na Suécia.
Na conquista mais recente, a pesquisa de Nayla Medeiros, feita em parceria com a estudante Ana Lívia Costa, ambas do 2º ano, chegou à final brasileira do Prêmio Jovem da Água de Estocolmo, promovido pelo Stockholm International Water Institute desde 1997, e é considerado o “Nobel” da ciência jovem voltada às questões hídricas.
Se vencer essa etapa, a dupla moradora de Pedra Branca ganhará uma viagem com todas as despesas pagas para representar o país na etapa internacional, realizada em Estocolmo, na Suécia.
O estudo de Nayla e Lívia surgiu da observação de uma questão local: o excesso de pó de ferro descartado por uma metalúrgica nas proximidades de casa e, em paralelo, a percepção de que plantas nativas, como a jurema preta, eram pouco valorizadas. Elas uniram as duas questões para criar nanopartículas de ferro com extratos dessas plantas, capazes de ajudar na purificação da água.
Financiamento para pesquisas
Apesar das celebrações e dos resultados, o acesso a eventos científicos internacionais ainda esbarra em limitações financeiras. Muitos alunos da EEEP Antônio Rodrigues de Oliveira vêm de famílias de agricultores, o que torna inviável arcar com custos elevados, como passagens que podem chegar a R$ 15 mil. Mesmo que alunos e professores realizem rifas e outras iniciativas para arrecadar recursos, nem sempre é possível garantir a participação de todos os estudantes credenciados.
“Além de nós trabalharmos com isso, nós precisamos ter quem possibilite, pois não adianta eu estar aqui motivando todos esses meninos e falar assim a Febrace é real, a Mostratec é real, a Genius é real, vocês vão para Nova Iorque, vocês vão falar inglês, vocês vão ter contato com outras culturas, se eu não tivesse lá na ponta, um grupo que possa nos financiar”.
Para a diretora da escola, Josefa dos Santos, essas iniciativas têm impacto direto, especialmente para alunos em situação de vulnerabilidade social e, segundo ela, a iniciação científica é são impulsionada principalmente pelo forte engajamento dos estudantes, que, muitas vezes, permanecem na escola por um tempo além das 9 aulas diárias.
"Eles viram madrugadas, finais de semana e feriados. Muitas vezes eu estou em casa no feriado e eles estão ligando para vir para a escola porque está próximo de uma feira, de uma exposição. Então isso é muito importante, esse desejo deles", destaca ela.
A escola, que é profissionalizante, tem 540 alunos matriculados, que é a capacidade máxima. A unidade oferece atualmente seis cursos técnicos: Agronegócio, Eletrotécnica, Energias, Enfermagem e Informática, e passa por uma transição já que Eletrotécnica está sendo substituída por Energias e Agropecuária por Agronegócio. Mesmo com as mudanças, os seis cursos estão em funcionamento.
Como é a iniciação científica?
Na escola, todo início de ano é feita a Oficina dos Sonhos, e a equipe da iniciação científica é apresentada. Para entrar na iniciativa é preciso passar por um processo seletivo com inscrição e entrevista. Nesse diálogo, são avaliados interesses, objetivos e disponibilidade de cada aluno. Hoje, a seleção ocorre anualmente, a cada começo de ciclo, e são selecionadas de três a quatro pesquisas, que é um número compatível com a capacidade de orientação.
Os projetos partem tanto de ideias dos próprios alunos quanto de temas propostos dentro das áreas de domínio de Renato, e envolvem diferentes campos do conhecimento, como das ciências humanas à engenharia.
No grupo, a escola mantém atualmente quatro pesquisas ativas, voltadas a problemas locais e soluções de baixo custo. Entre elas estão:
- A produção de madeira ecológica a partir de resíduos do setor madeireiro (credenciado para ir à Genius Olympiad, competição internacional para alunos do ensino médio com foco em questões ambientais globais);
- A criação de uma nanopartícula com plantas da caatinga - como a Jurema preta - para remover metais pesados e impurezas de águas contaminadas (classificado para a Expo Nacional Milset Brasil, feira internacional realizada em Fortaleza);
- O grantec, espécie de barreira feita com granito para conter metais pesados em áreas de lixão (também classificado para a Expo Nacional Milset Brasil);
- O desenvolvimento de um filtro barato e ecológico com plantas da caatinga para tratamento de microplásticos.
Uma das pesquisas, sobre o reaproveitamento da madeira, em 2026, ficou em 2° lugar geral em Ciências Exatas e da Terra na Febrace. Com isso, garantiu a credencial para a Genius Olympiad, em Nova Iorque, e pode garantir a Matheus Monteiro Lopes, de 17 anos e aluno do 3º ano, a primeira viagem internacional.
Na Febrace, ele e a aluna Mariane Martins, também de 17 anos e do 3º ano, subiram ao palco e asseguraram o direito de viajar aos Estados Unidos. Ela fará a segunda viagem internacional garantida pelo êxito de um projeto científico.
"Eu venho da escola pública desde o meu fundamental e eu não conseguia perceber uma conexão com a ciência, mas na escola eu quis participar. Só que eu não sabia que era possível da forma que aconteceu comigo. Quando eu me vi apresentando a minha pesquisa fora do país foi algo muito gratificante. Eu representava minha cidade, meu país e as pessoas que eu amo".
Só em 2025, a dupla apresentou pesquisas em Fortaleza, Recife e São Paulo. "É uma realidade que a gente vê desde pequeno, mas parece que tá tão longe. No caso da minha viagem internacional, era meu maior sonho e ficou marcado para toda a minha vida", relembra Mariane.
Outra pesquisa é desenvolvida pelos estudantes Maria Clara de Souza e Gabriel Dias Pereira, ambos de 16 anos, e alunos do 2º ano. "A gente sempre quis fazer parte da iniciação científica, e quando a gente passou (no processo seletivo) foi incrível, a sala inteira comemorando", recorda Maria Clara.
O estudo da dupla nasceu da percepção de um problema local, a contaminação gerada pela existência de dois lixões na cidade (sendo um no distrito de Mineirolândia), e a presença da indústria de rochas ornamentais. Diante da questão, eles começaram a desenvolver uma pesquisa sobre o uso das sobras de um tipo granito para retirar os contaminantes nos lixões.
“Essas rochas normalmente são utilizadas para revestimentos, mas a sua rebarba e seus descartes são feitos de forma inadequada. Identificamos essas problemática e decidimos trabalhar. Pensamos então em como usar os rejeitos da indústria para retirar os contaminantes que tem nos lixões. A partir daí escolhemos um granito, depois da definição junto a Secretaria de Finanças e com as próprias indústrias, quais eram os mais descartados e depois de diversos testes escolhemos um”.
Nesse processo, relata ela, o ferro descartado foi misturado com extratos dessas plantas, e a partir de processos químicos, formaram partículas extremamente pequenas (nanopartículas), invisíveis a olho nu, que quando colocadas na água suja, conseguem “grudar” nas impurezas. Depois, por serem magnéticas, são retiradas levando a sujeira junto.
As análises laboratoriais contam com o suporte de universidades parceiras, que ajudam a garantir a qualidade dos dados, relata Renato. Mas, a interpretação é sempre conduzida pelos próprios alunos, com mediação do professor. “Porque não adianta fazer ciência se eles não tiverem como objetivo entenderem o que eles estão fazendo”, ressalta.
Para Renato, essa autonomia faz diferença especialmente nas grandes feiras, onde os avaliadores, que são especialistas, exigem domínio real do conteúdo, e não apenas memorização.
Outro aspecto é que a rotina de pesquisa vai além do horário regular de aulas, que na escola é das 7h até 16h20. Os estudantes usam momentos de aula, como intervalos livres e horário pós-aula para desenvolver experimentos, discutir resultados e treinar apresentações.
Nesse processo, o apoio da gestão e a participação das famílias são destacados, já que eles ficam na escola inclusive no horário da noite em laboratório como o de química e de biologia. Por ano, a escola, segundo Renato, tem cerca de 2 mil a 3 mil, para garantir os recursos a serem usados nesses espaços.
Se nos eventos nacionais e internacionais, a escola se destaca pela capacidade de realização de pesquisas científicas, no desfile de 7 de Setembro, esse reconhecimento ganha as ruas de Pedra Branca. Os jovens cientistas fecham o cortejo cívico. Usam as blusas do time e carregam consigo as medalhas conquistadas. São muitas e com som do tilintar, a “a comunidade chega a se emocionar”, garante a diretora Josefa dos Santos.
São cientistas do agora, defende Renato: “Quando eles vão para fora, graças a essas políticas públicas que o Estado garante, têm o primeiro o acesso que o Renato lá de 2014 teve, eles começam a tornar real, porque teve alguém que acreditou neles e agora eles acreditam também. E aí na faculdade o que eles fazem? A primeira coisa é irem buscar um grupo de iniciação científica. Então, nós não estamos formando cientistas para o amanhã, mas sim para o hoje. Porque eles estão resolvendo problemas do hoje”.
(Diário do Nordeste)